Jul 19 2008
Programas Livres e o Governo
Foi uma quinzena prolífica com assuntos sobre os quais escrever, mas a escolha recaiu para este por ser, talvez, o mais grave de todos os anúncios feitos nos últimos tempos.
Na defesa e segurança informáticas, é costume referir-se que um bom profissional na área tem de ter um pouco de paranóico. É um conceito que não deve ser tomado levianamente: a segurança informática é um trabalho que nunca está feito, e quando não se vêm resultados é quando as coisas estão a correr melhor. O trabalho na segurança informática só é posto em causa quando a dita segurança foi comprometida. Assim, “ser paranóico” significa saber que “tudo o que pode acontecer, vai acontecer”, e o trabalho de defesa informática passa por identificar potenciais vértices de ataque, e proteger-se deles.
Assim, não deixa de ser irónico ler na comunicação social que o Ministério da Defesa fez estabeleceu uma parceria com a Norte-Americana Microsoft para a criação de um centro de investigação. Dessa notícia, destaco o seguinte:
Esta parceria [...] estabelecerá e desenvolverá uma plataforma de trabalho conjunto para potenciar a economia de software local em torno do mercado da defesa nacional. Neste campo, a Microsoft quer integrar as componentes desenvolvidas no Microsoft Language Development Centre de Lisboa, utilizando a língua portuguesa nos respectivos interfaces e disponibilizar conteúdos técnicos necessários ao Centro de Inovação, nomeadamente através da criação de uma biblioteca sobre a plataforma .NET, da organização de workshops e acções de formação com vista à utilização e à divulgação das tecnologias emergentes necessárias às actividades do centro.
Vejamos:
- O Ministério de Defesa Português estabeleceu uma parceria com uma empresa Norte-Americana para a criação de um centro de investigação
- o software para a defesa nacional vai integrar componentes desenvolvidas pela dita empresa Norte-Americana
- os documentos técnicos estarão disponíveis através de uma biblioteca sobre uma plataforma proprietária e fechada, da dita empresa Norte-Americana
- ao abrigo deste protocolo, a dita empresa irá incentivar a utilização e proceder à divulgação das suas tecnologias
Neste caso, nem vale a pena pegar no ponto em que se vê o Governo Português estar a estabelecer uma parceria com uma empresa condenada pela União Europeia. Servir-nos-à apenas destacar o facto do Ministério de Defesa Português estar a colocar-se, voluntariamente e de agrado, à mercê de uma empresa estrangeira, cujo background não é de louvar, passando a usar software proprietário e fechado, do qual não poderá validar e apenas confiar na sua segurança, e, como agradecimento, promove a publicitação dos produtos da dita empresa.
Fica-nos ainda um gosto amargo por não saber porque não houve concurso público para a atribuição desta parceria, ou a curiosidade em saber quem é que tomou a decisão de entregar desta forma a Defesa Nacional, quanto temos em Portugal Sistemas Operativos abertos como o Alinex ou a Caixa Mágica, quando temos em Portugal institutos dedicados à questão da Segurança como o CERT do Instituto Pedro Nunes, quanto temos em Portugal variadíssimas empresas que trabalham de uma forma mais aberta e clara, como as várias empresas-membro da ESOP.
Fica-nos um gosto amargo por ver-mos o Governo gastar milhões num Plano Tecnológico que, em vez de melhorar a situação no país, a piora.
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Marcos Marado escreve no PL ao Sábado sobre Direitos Digitais. Podem encontrar mais artigos como este no seu blog pessoal. |














