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Jul 19 2008

Programas Livres e o Governo

Publicado por Marcos Marado em Direitos Digitais
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Foi uma quinzena prolífica com assuntos sobre os quais escrever, mas a escolha recaiu para este por ser, talvez, o mais grave de todos os anúncios feitos nos últimos tempos.

Na defesa e segurança informáticas, é costume referir-se que um bom profissional na área tem de ter um pouco de paranóico. É um conceito que não deve ser tomado levianamente: a segurança informática é um trabalho que nunca está feito, e quando não se vêm resultados é quando as coisas estão a correr melhor. O trabalho na segurança informática só é posto em causa quando a dita segurança foi comprometida. Assim, “ser paranóico” significa saber que “tudo o que pode acontecer, vai acontecer”, e o trabalho de defesa informática passa por identificar potenciais vértices de ataque, e proteger-se deles.

Assim, não deixa de ser irónico ler na comunicação social que o Ministério da Defesa fez estabeleceu uma parceria com a Norte-Americana para a criação de um centro de investigação. Dessa notícia, destaco o seguinte:

Esta parceria [...] estabelecerá e desenvolverá uma plataforma de trabalho conjunto para potenciar a economia de software local em torno do mercado da defesa nacional. Neste campo, a quer integrar as componentes desenvolvidas no Language Development Centre de Lisboa, utilizando a língua portuguesa nos respectivos interfaces e disponibilizar conteúdos técnicos necessários ao Centro de Inovação, nomeadamente através da criação de uma biblioteca sobre a plataforma .NET, da organização de workshops e acções de formação com vista à utilização e à divulgação das tecnologias emergentes necessárias às actividades do centro.

Vejamos:

  • O Ministério de Defesa Português estabeleceu uma parceria com uma empresa Norte-Americana para a criação de um centro de investigação
  • o software para a defesa nacional vai integrar componentes desenvolvidas pela dita empresa Norte-Americana
  • os documentos técnicos estarão disponíveis através de uma biblioteca sobre uma plataforma proprietária e fechada, da dita empresa Norte-Americana
  • ao abrigo deste protocolo, a dita empresa irá incentivar a utilização e proceder à divulgação das suas tecnologias

Neste caso, nem vale a pena pegar no ponto em que se vê o Português estar a estabelecer uma parceria com uma empresa condenada pela União Europeia. Servir-nos-à apenas destacar o facto do Ministério de Defesa Português estar a colocar-se, voluntariamente e de agrado, à mercê de uma empresa estrangeira, cujo background não é de louvar, passando a usar software proprietário e fechado, do qual não poderá validar e apenas confiar na sua segurança, e, como agradecimento, promove a publicitação dos produtos da dita empresa.

Fica-nos ainda um gosto amargo por não saber porque não houve concurso público para a atribuição desta parceria, ou a curiosidade em saber quem é que tomou a decisão de entregar desta forma a Defesa Nacional, quanto temos em Portugal Sistemas Operativos abertos como o Alinex ou a Caixa Mágica, quando temos em Portugal institutos dedicados à questão da Segurança como o CERT do Instituto Pedro Nunes, quanto temos em Portugal variadíssimas empresas que trabalham de uma forma mais aberta e clara, como as várias empresas-membro da ESOP.

Fica-nos um gosto amargo por ver-mos o gastar milhões num que, em vez de melhorar a situação no país, a piora.

mmarado Programas Livres e o Governo Marcos Marado escreve no
PL ao Sábado sobre Direitos Digitais.
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4 respostas para “Programas Livres e o Governo”

  1. Bruno Miguel | 19 Jul 2008 - 11:18 |

    Eu desconfiava que não tinha havido nenhum concurso público, mas era só mesmo uma desconfiança. Afinal, parece que tinha razão. :(

    Realmente, a escolha de uma empresa que tem uma reputação muito pouco positiva no que toca a segurança e que desenvolve software proprietário não se compreende. O Ministério da Defesa e todos os sectores do governo deviam apostar em algo que eles pudessem auditar totalmente e adaptar às necessidades concretas de cada departamento. O software fechado não permite nada isso, e só isso é, pelo menos para mim, sinónimo de má decisão - e atrevo-me a dizer, sinónimo de pouca inteligência.

  2. João Matos | 19 Jul 2008 - 14:35 |

    em tempos falava-se de lobbys agora é que já passou de moda…

    infelizmente é o sistema politico que temos… e a oposição? deviam fazê-los justificar este tipo de acções… não estamos a falar de pc’s para os ministros estamos a falar da segurança nacional…

    lembro-me de num dos eventos nacionais de Linux ir la alguém falar da justiça. terem adoptado Linux pela transparência, parece que isso deixou de ser necessário…

  3. João Rainha | 19 Jul 2008 - 15:39 |

    Destes palhaços, digo governo portugues, tudo se espera, que este país está sendo vendido desde o 25 de Abril, já nós sabemos (tenho que dizer que não estou nem nunca tive com o governo do antes 25/04/74), vai se jogar a defesa, como já estão outras áreas de soberania nas mãos do maior “polvo”, “máfia”, entre outros adjectivos menos edificativos, que existe no mundo, parece que ninguém ainda conseguiu ver que a M$ é o cavalo de troia do pensamento de dominação mundial USA, livrámos-nos daquela coisa abjecta que era a URSS, e agora querem que nos por ao colo do capitalismo selvagem e manietador da america. Só digo uma coisa, pobre portugal, que pouco tens sido, mas mais grave, pobre europa onde tu vais.

  4. Marcos Marado | 20 Jul 2008 - 11:15 |

    Bruno: atenção que eu suspeito que não tenha havido concurso público, visto não ter visto tal coisa, mas não é uma certeza. Aliás, adoraria ver o contrário ser provado.

    João Matos: realmente, o tema que aqui foquei não é novo, e a minha opinião não é pouco fundamentada. Em eventos como o que dizes - e posso dar o exemplo do 7º EGTI, que foi sobre “Software Livre na Administração Pública” - chega-se sempre à conclusão que, no caso da AP, e principalmente no que diz respeito a confiança, segurança e autonomia, Software Livre é a escolha acertada. Claro que da teoria à prática vai muita distância, e na prática é mais lucrativo para muitos continuar tudo na mesma…

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